Depoimento de Lilian Amaral sobre "Isso que Chamamos, Talvez por Engano, de Amor""

Ei Pessoal,
Assisti hoje o trabalho de vocês e fiquei muito tocada com o que vivi. E ouvindo de vocês "escrevam!" atrevi-me a registrar o sentido que fez pra mim.

Obrigada por reforçar o que alimento sobre o teatro como espaço de auto reflexão e conhecimento transformador.

Um abraco!!!

Então, pra mim foi isso...

Ficamos chapados, mudos, somos parede – tensos, incomodados, mofados, acomodados – assistindo angustiados o fim do que ainda não terminou. Imóveis, somos espaço – cenário, nada podemos fazer além de estar ali. Por alguns momentos deixamos de existir ao mesmo tempo em que somos o ali, o aqui e agora.
A divisao dos bens, dos maus – divide-se, se divide. O que é do outro em mim, o que é meu no outro. O que é nosso e deixará de existir , quando a gente já não for mais dois.
A angustia do término, a densidade do espaço – tão comum, tão de cada um. A tensao dos atores que nos apaga. Em alguns momentos, olho pra meus companheiros “platéia-cenário”, estamos todos cabisbaixos, encimesmados, talvez buscando uma memoria de nossas próprias perdas ou a ressignificação delas – existimos pra dentro.
Há um desejo de dizer tudo, mas é o não-dito que ocupa todos os espaços possiveis – só a música consegue dizer, a poesia ecoa no silêncio do não dizer, do não ouvir, do não saber.
Quando os atores saem de casa e nos deixam na música, no escuro, somos aquela solidão toda, somos a falta que sobra quando o amor acaba. Nos vem uma vontade de sair, acender a luz, parar a música, mudar a cena, mas imóveis e sozinhos (sim, porque não damos um pio sequer, pois o outro, como nós não exite ali tb, não há interlocutor possível na nossa solidão), esperamos angustiados que eles voltem e quem sabe mudem a cena, recomecem.
E eles voltam, e com eles velhos e novos vícios vem tentar ocupar algum lugar no vazio – é preciso eleger novos lugares para não enlouquecer. Os desejos apesar de coincidentes, não se encontram – e nesse entra e sai de pulsoes essa volta os vai tornando aos poucos mais leves, algo já se quebrou, mas não vamos mais nos apegar a isso. E o tempo, ah o tempo...é o remédio que alívia qualquer dor, mas não apaga as marcas por elas deixadas.
A casa se acende, nós nos acendemos, até o cachorro (em cena ou não) se alegra. A gente até se permite um riso timido, um compartilhar alegre com o olhar do outro, voltamos a existir. Há ainda algo que talvez se possa ser chamado de amor, talvez não aquele amor do inicio (quando dancavam ridiculamente mas sem timidez por ainda estarem juntos), mas um outro tipo de amor, aquele que ainda resta depois da dor.
Aquele que nos diz que há sempre algo que se relembrar, algo que se comemorar, o amor sempre dá certo, mesmo quando acaba. A marca, o registro estará sempre ali, na memória ou na fotografia – na história, em nós.

Comentários

Adriano de Almeida. disse…
Amei o texto, ele nos faz refletir e nos coloca uma pergunta. Será que todo mundo já viveu uma experiência assim? Ou será que ainda todos vão viver?

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